Transformação Digital na área de Óleo e Gás

16 de agosto de 2018

O advento da Transformação Digital, ou da chamada Indústria 4.0, está otimizando processos e por vezes criando rupturas nos modelos operacionais existentes. Como tal, a indústria de Óleo & Gás não poderia deixar de ser alterada por esta evolução. Parte desta transformação é ocasionada pela queda do preço de sensores para menos de 1/3 em uma década, ocasionando a viabilidade de soluções que já existiam há algum tempo. Exemplo mais marcante no Brasil, é o da Completação Inteligente, onde sensores subsea fornecem informações sobre características das acumulações de petróleo em um poço que atravessa mais de um reservatório, permitindo que se injete água para aumentar a produção na formação que dela realmente mais necessita. Contudo, a primeira Completação Inteligente no Brasil data de 1997. O que diferencia o momento atual é que o decréscimo do custo dos sensores viabiliza sua aplicação mais generalizada.

Outra tecnologia característica desta evolução é a Inteligência Artificial. Para mencionar um exemplo fora da área de Óleo & Gás, analisemos o carro autônomo. Ele automatiza procedimentos que o motorista desempenha, como acelerar, frear, etc, a partir de sinais de tráfego, contatos com carros ou obstáculos próximos, etc. Estes sinais são regras operacionais que não são equações ou algoritmos. Tomemos agora a sísmica no ramo de petróleo. Geofísicos e geólogos analisam curvas geradas pelo processo, e a partir daí estabelecem prioridades maiores ou menores para que aquela acumulação venha a ter petróleo. Isto é um fator importante para aumentar a probabilidade de que um poço seja bem sucedido, ou seja, encontre óleo ou gás. Poços em grandes profundidades no mar custam dezenas, às vezes mais de uma centena de milhões de dólares. Geólogos e geofísicos, ao analisar as curvas, utilizam sua experiência, aplicando regras que não são necessariamente algoritmos ou equações, tal como ocorre com os motoristas substituídos pelo carro autônomo. Empresas de petróleo têm realizado parcerias com empresas de TI para que estas apliquem a Inteligência Artificial para simular as regras de negócio implícitas que são utilizadas pelos geofísicos e geólogos ao analisar as curvas da sísmica.

De forma similar, em muitos processos dentro da Cadeia de Valor de Óleo & Gás, profissionais utilizam regras operacionais que podem ser simuladas pela Inteligência Artificial. Também têm sido registrados exemplos de empresas de petróleo realizando parcerias com empresas de TI para otimização de processos da área de Refino. Ainda, em analogia ao carro autônomo, na área da operação de plataformas em alto mar, a visão atual para se caminhar para estas plataformas em médio prazo é de plataformas autônomas, ou o mais perto disso.

Outras tecnologias têm ajudado a revolucionar os processos na indústria de Óleo & Gás, entre elas a robótica, importante em todas as áreas, principalmente no subsea. Também são relevantes os drones, com muitas aplicações na inspeção e manutenção em áreas de mais difícil acesso em plataformas marítimas, e também em dutos, que atravessam por vezes centenas ou milhares de quilômetros, realizando estas tarefas de forma mais econômica.

Importante é ainda notar que o resultado ótimo da aplicação destas tecnologias provem da sincronização de várias delas em um mesmo processo. Assim por exemplo no carro autônomo, não basta simular em software as regras operacionais da mente do motorista, é preciso que, em conjunto, esteja também a automação, de forma a acelerar, frear, etc, quando acionado pelo software. De forma análoga, na operação das plataformas marítimas e em outros processos, é necessária a agregação da automação, da robótica, e das telecomunicações.

Outras tecnologias são também importantes para reduzir custos destes novos processos. Em seu livro “A Quarta Revolução Industrial”, Klaus Schwab, fundador e Presidente-Executivo do Fórum Econômico Mundial, menciona que há quem preveja até 1 trilhão de sensores até 2030. Evidentemente, esta imensa quantidade de dados gerados tem que ser processada de forma econômica, e transformada em informações relevantes para as operações e decisões. Entram aqui, entre outras tecnologias, o processamento na nuvem, para fazê-lo da forma mais econômica e sob demanda, e Big Data. Isto possibilita analisar as informações e torná-las preditivas, como é o caso da Gestão de Ativos e Manutenção, agregando vários sintomas, analisando-os e, quantificando com probabilidades, auxiliando a prever a necessidade de intervenção em um certo ponto no futuro.

Pelo menos 2 outros documentos na área de Óleo & Gás precisam ser citados. Em primeiro lugar, em sua edição de 03.07.2017, o Oil&Gas Journal menciona diversas iniciativas na área de petróleo. Entre elas a formação na Statoil ( hoje Equinor ) de um grupo com investimento de mais de U$200 milhões até 2022 para investigar e realizar iniciativas de aplicação das tecnologias de Transformação Digital para aplicá-las na empresa em âmbito mundial. E também neste artigo está, entre outros exemplos, a contratação por um consórcio de empresas, entre elas Shell, Chevron, e Saudi Aramco, de uma Startup tecnológica no Vale do Silício de nome Maana. Esta contratação tem como objetivo o desenvolvimento de soluções em várias áreas da Indústria de Petróleo, em espaço curto de tempo, utilizando as várias tecnologias hoje englobadas como Transformação Digital. Muitas destas áreas estão citadas no artigo.

O outro documento é a pesquisa que a Open Text, empresa canadense realizou com mais de 700 executivos da área de Óleo & Gás em todos os continentes, e publicada no início de 2018. Entre várias perguntas destacam-se:

-“Que partes da Cadeia de Óleo & Gás você crê que mais se beneficiarão da Transformação Digital” (era possível responder mais de uma). As 3 mais citadas foram “Integridade de Ativos e Manutenção (58%), Desenvolvimento da Produção (40%), Perfuração (27%)”, representando quase 60% das respostas citadas.

-“Qual sua prioridade atual em termos de Transformação Digital” (onde só era possível responder uma). A resposta foi: “Análise Preditiva (24%), Automação Inteligente (12%), Dispositivos Inteligentes (10%), Inteligência Artificial (9%), Machine Learning (9%), IoT (9%), Computação em Nuvem (8%), Análise Cognitiva (5%), Automação de Processos Robótica (3%), Outros (12%)”

É preciso ainda ressaltar que, para que as promessas da Transformação Digital sejam realmente concretizadas em espaço de tempo adequado em relação a seus competidores, 3 principais fatores são sempre citados, tanto no livro de Klaus Schwab, quanto na pesquisa da Open Text, quando em papers de organizações como por exemplo o Boston Consulting Group:

-A identificação de áreas da organização que mais se beneficiarão das novas tecnologias de Transformação Digital

-Um esforço de capacitação do corpo técnico e gerencial nestas tecnologias e nos objetivos de sua aplicação nas áreas anteriormente identificadas

-Uma mudança de cultura, pois a transformação dos modelos operacionais significará a necessidade de uma cultura de decisões mais rápidas (coerentemente com a aceleração dos processos), um processo muitas vezes colaborativo entre grandes organizações e empresas menores para o alcance dos resultados rapidamente (como o exemplo já citado de um consórcio de empresas de petróleo gigantes com uma Startup tecnológica no Vale do Silício), e uma mudança organizacional coerente com estas transformações.

Por Manoel Segadas, Coordenador da Comissão de Tecnologia da Informação do IBP